“É preciso ensinar aos alunos sobre Filosofia”
Para o professor Jorge Antônio Soares Leão é preciso fazer com que a
disciplina não seja vista como um bicho-de-sete-cabeças.
Ter a atenção dos alunos durante uma aula de Filosofia é difícil, pois muitos consideram a disciplina “sem graça”. Mas, o professor Jorge Antônio Soares Leão, querido entre os alunos do Centro Federal de Educação Tecnológica do Maranhão (CEFET-MA), tem conseguido a participação ativa de seus alunos em um projeto que une o aprendizado da Filosofia, ciência pela qual ele se declara apaixonado, com as representações artísticas, tais com a música e o teatro. Com o projeto “Filosofia com Arte no Ensino Médio” posto em prática há mais de dois anos, os estudantes conseguem extrair dos diversos movimentos artísticos não apenas um bom aprendizado da Filosofia, mas também, toda uma nova concepção sobre o pensar.
Como surgiu a idéia do projeto?
A idéia surgiu da necessidade de garantir um ensino filosófico em sala de aula, sem que isso se tornasse para os alunos algo desconectado de sua vida. Daí o encontro com a arte, mais propriamente a literatura, o teatro, a música e o cinema. Penso que, após a fundamentação teórica dos conteúdos, é necessário que ocorra um elemento motivador, que aproxime a linguagem filosófica do saber dos alunos e dos problemas contemporâneos, por isso o uso de tais linguagens de arte em sala de aula como propostas para trabalhos em grupo.
Quando iniciou?
Quando comecei a dar aulas no CEFET-MA, em março de 2002, não tinha qualquer experiência com ensino de Filosofia, e foi a partir de uma dramatização do mito de Édipo, adaptada pelos alunos, que percebi o quanto é necessário o professor perceber que a sua formação acadêmica precisa estar cotidianamente ligada a uma sensibilidade estética, isto é, a um processo de criação e recriação de seu próprio fazer pedagógico, que, em grande parte, é oriundo daquilo que o professor é capaz de aprender com seus alunos.
É difícil lecionar Filosofia?
Assim como outra disciplina, pode ser difícil ensinar Filosofia, quando não se compreende o que é propriamente a experiência filosófica do pensar. Se, ao contrário, a finalidade do ensino de Filosofia for suscitar nos alunos o processo de autonomia intelectual, por meio de sua capacidade de levantar questões essenciais para o ser humano, problematizar a realidade e ser capaz de elaborar respostas conceituais a tais problemas, então o ensino de Filosofia tornar-se-á não algo fácil, mas com um significado profundo para a vida dos alunos presentes na sala de aula, não como expectadores, mas como livres pensadores. Considerar a Filosofia algo “difícil” pode ser a primeira dificuldade no ensino de Filosofia, se entendermos aqui o termo “difícil” como algo incompreensível, distante, isolado da realidade do mundo.
Qual o maior desafio?
Estar em mediar o processo do pensar, sem que para isso tenhamos que nos tornar, como professores de Filosofia, incompreensíveis aos nossos alunos. Ou seja, é um desafio entrar em sala de aula e garantir o ensino filosófico, sem cair na tentação de explanar informações sem significado para a realidade dos alunos, ou, como também pode ocorrer, na simples proposta de uma aula temática, que na maioria das vezes se transforma em uma aula de “achismos”, onde cada aluno tem uma opinião ou preconceito estabelecido sobre os mais variados temas cotidianos.
Enquanto recurso pedagógico como a arte pode contribuir na formação educacional?
A Arte é uma experiência humana para dar significado à existência. Assim como a Filosofia, ela instiga a consciência humana para o problema do sentido da vida. Desse modo, a percepção artística, a sensibilidade e a imaginação criativa são elementos fundamentais para a realização de um processo de formação que compreende o ser humano em sua integralidade. Por isso, é tão importante a Arte nas aulas de Filosofia, e na escola de um modo geral.
Como são feitas as avaliações?
As avaliações levam em consideração o processo de aprendizagem ao longo de uma série de atividades. Isto é, os alunos são levados a participar das aulas junto com o professor, tendo como ponto de partida à fundamentação teórica, com as aulas expositivas, a necessária leitura dos textos filosóficos (que devem ser relacionados ao tema proposto), a problematização dos conteúdos, que pode ocorrer, conforme a escolha do professor e as condições da escola, por meio de uma música, de um texto literário ou de um filme, para só assim ocorrer o debate, em que a turma é dividida em grupos de seis a sete alunos, onde cada equipe deverá criar uma maneira de responder aos problemas apresentados durante o estudo dos temas expostos em sala de aula pelo professor.
Como o professor deve trabalhar a Filosofia em sala de aula?
Levando em consideração, primeiramente, que compreensão de Filosofia o professor leva a seus alunos. Tendo essa clareza, será mais perceptível a metodologia a ser trabalhada. A dinâmica da pesquisa em sala de aula, por exemplo, é oriunda de uma percepção de Filosofia que, necessariamente, leva o ser humano a ser autor de sua história e construtor responsável pelo processo do conhecimento; não um mero expectador, arquivo morto de informações inúteis de um passado distante, admitido como depósito de peças de um museu afastado dos problemas concretos da vida.
Qual a sua opinião sobre as formas de lecionar Filosofia hoje em dia?
Ainda há muita dificuldade no ensino de Filosofia. Todavia, penso que o problema hoje é geral na escola. Os professores saem da Universidade com uma compreensão fragmentada do conhecimento, o que acaba refletindo em um ensino academicista, ainda voltado para o vestibular, e que não promove, por conseqüência, o exercício da autonomia intelectual dos alunos. Tanto a Filosofia quanto as demais disciplinas vêm passando por tais dificuldades. Deve-se por isso repensar nossas práticas pedagógicas, assim como nossa formação acadêmica, para saber que a escola deve responder a problemas contemporâneos de ordem complexa, de maneira interdisciplinar e contextualizada.
O que é mais prazeroso para você, como educador, ao desenvolver este projeto?
Saber que os alunos estão aprendendo a caminhar com suas próprias pernas. Essa é uma conquista que muito nos anima na realização deste projeto.
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