Educação e Responsabilidade social
Cidinho Marques
Viver até que pode ser fácil, conviver é sempre um desafio maior. Outra máxima com o que desejo iniciar é: “Envelhecer é obrigatório, amadurecer é opcional”. Tanto a primeira frase quanto a última deve ensejar aos menos incautos uma reflexão sobre o nosso desenvolvimento interior. Durante a vida inteira, obrigados pela ditadura da genética, crescemos física e fisiologicamente quase sem parar. Mesmo em idades avançadas quando não temos mais nada para crescer continuam aumentando de tamanho as orelhas e o nariz quem sabe para nos lembrar mais uma vez que temos que auscultar melhor o mundo e cheirar mais incomodamente o odor das desigualdades sociais.
A verdade é que continuamos a nos transformar desde que nascemos. Atravessamos a infância e a adolescência com o aparecimento e o desaparecimento de hormônios, ficamos mais gordos ou mais magros, e desenvolvemos habilidades físicas de acordo com as circunstancias de treinamentos que nos impomos. Mas é uma pena que essa “obrigatoriedade” de crescimento nem sempre aconteça no lado mental e espiritual. Às vezes, muito pelo contrário! O egocentrismo, normal e característico da criança – como nos fala Jean Piaget – que deveria se diluir ao galgarmos mais idade, nem sempre diminui e muito menos desaparece. Quando disse que viver até pode ser fácil, mas conviver é o desafio maior referia-me ao fato de que viver com o outro, mesmo indiretamente, significa ter desenvolvido os sensos de tolerância, de perdão e, sobretudo, de solidariedade dentre outros. Para nós um dos indiscutíveis sinais de maturidade é indubitavelmente a humildade em aceitarmos a interdependência entre os seres, todos eles – inclusive os ditos desprovidos de vida, já que tudo é energia e, portanto tudo se liga compondo a teia cósmica de cuja poeira fazemos parte. Com efeito, responsabilidade social assume para mim a dimensão supra-sumo da ecologia no seu sentido mais amplo. Em nossa visão, portanto, responsabilidade social é sobretudo isto: O entendimento e a promoção da solidariedade entre tudo e todos. Que nossa sociedade é complexa e que as causas da origem da pobreza, da miséria e da violência são multifatoriais ninguém duvida. Seria bom também que não duvidássemos que fazemos parte indicotomizável (quer conscientes ou não) deste contexto sócio-político.
A educação deveria sempre ser o principal vetor desta conscientização. Educar para a responsabilidade social é favorecer o desenvolvimento dos nossos educandos no que diz respeito às suas sensibilidades para com a triste realidade de que somos quase sete bilhões de humanos e destes 1/3 vive na linha da miséria e outro terço abaixo desta. Ou seja: Mais de 4 bilhões dos habitantes deste nosso planeta vivem na miséria. É importante discutir as causas dessa estatística, mais importante, porém, é fazer algo pelos menos favorecidos. Se merecem ou não e quem merece nossa ajuda nada tem a ver com a comida que sobra em nossa mesa, os sapatos caros que nunca mais usamos, a blusa ainda nova que deixamos de usar por ter saído de moda, o novo celular que acabamos de adquirir porque é lançamento ou ainda a solidariedade que sempre esperamos dos outros mas que nem sempre somos capazes de oferecer.
Incluir no currículo escolar reflexões e debates seguidos de ações de responsabilidade social deveria ser tão obrigatório quanto o é a inclusão das disciplinas básicas em qualquer planejamento pedagógico. Suscitar nas famílias e nas empresas ações de solidariedade não-paternalistas às comunidades carentes, difundir e ensinar estratégias de ação de responsabilidade social e criar núcleos de geração de renda (como muito bem o faz o ICE-MA – Instituto de Cidadania Empresarial do Maranhão – uma das ONG’s que mais cresce em nosso Estado) é atentar para uma contribuição que, embora ainda pequena, pretende ser um exemplo a ser imitado por todos nós, especialmente pelos educadores, para que se comece a pagar o grande débito que nós que fazemos parte daquele 1/3 dos que tem habitação, comida e saúde, temos para com tudo e todos.
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