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Ponto de vista
Arquitetura e Bossa nova: 50 anos de um charmoso encontro.
Por Andrea Duailibe

Não é coisa de coroa; é coisa de gente. Gente é assim. Constrói suas lembranças vinculando as ações a determinados sons, cheiros, imagens, luzes e cores. Todas as cenas ficam armazenadas no inconsciente e no coração, até que por alguma razão qualquer, encontram espaço para extravasar. É um processo involuntário, que pode ter início com cheiro de um pão quente com margarina derretida e um café passado em fim de tarde, ou mesmo, estimulado por um entardecer úmido ao som das cigarras nas árvores. Gente é assim, do nada, se enche e quase transborda de um êxtase melancólico, mal sabendo o observador a intensidade daquele momento, do poder que aquele fenômeno tem de mudar toda a cena, pois, de súbito, foi capaz de mudar o olhar de um dos seus atores.
A Espacialidade de Heiddeger
O filósofo alemão Martim Heidegger -nascido em l889- entendia que a noção de espacialidade compreendia vários tipos de espaço, dentre eles, o que chamou de “espaço natural de orientação”, que é o espaço das esferas sensoriais (visual, acústica e tátil), e graças às quais o indivíduo se orienta em seu ambiente circundante. Talvez por essa razão, ao mesmo tempo em que Tom Jobim e Vinícius de Morais cantavam as curvas de Helô Pinheiro, Oscar Niemeyer soltava o traço em amplas curvas, sem a menor culpa. Existia aí uma sintonia metafísica, que impregnava as almas com a mais pura descontração no processo criativo.
Aqueles que tiveram sua infância ritmada pela bossa nova, lá pelos idos anos 60, têm grande dificuldade de se acostumar aos sons intermitentes e quase sem-sentido, tão presentes na cultura atual. Normalmente, o desenrolar de um sem-fim de frases de efeito, entremeadas por palavrões, com certa ginga. De início, o som passa despercebido para essas pessoas, porém, o efeito anestesiante do tud-tud tem prazo: de repente, o ouvinte se dá conta dele e num gesto relativamente ágil, troca de estação ou simplesmente, busca refúgio num local mais aprazível. Antes do tud-tud, vieram os anos oitenta, anos meio cítricos, com cortes de cabelo espetados, muita lâmpada fluorescente e cores a la Mondrian. Um deslumbre total! Queira Deus, nossos filhos nunca vejam nossas fotos de conclusão de Ensino Médio... Tudo tão estranhamente Yuppie... Por essas e por outras, é preciso ter visão temporal das coisas, contextualizar as cenas, pois somente assim, as sensações trazidas pelas lembranças fazem sentido, mesmo que o observador nem sequer se dê conta do ocorrido.
O clima bossa-nova
A arquitetura é uma companheira versátil e sem preconceitos, que se ajusta perfeitamente ao modo de vida das pessoas. Isto, porque antes da arquitetura usar o espaço, nós próprios somos o espaço, pois guardamos dentro de nós a incomensurável espacialidade das lembranças.
Bossa nova na lembrança de infância, por exemplo, é um LP de show ao vivo tocando baixinho em apartamento de tom pastel, mobiliário escuro, conversa alta, bastante fumaça de cigarro e cheiro de álcool no hálito de adultos intelectualizados, todos certos de serem meio gauche na vida... Dos vastos cabelos à bata psicodélica, tudo na cena ainda é Moderno, é novidade, menos a bossa. Ela é convidada cativa e sem ela, a cena carioca fica incompleta. Ela é, portanto, a aniversariante.
Bossa nova do segundo milênio é uma bossa revisitada, aparece de surpresa, com jeito meio lounge, chega com o frescor das almas vanguardistas, é cantada baixinho pelos filhos e pelos netos, já adultos, em cafés descolados, ao sabor de sanduíches light, expresso descafeinado e refrigerante zero caloria. Cigarro, nem pensar! Tudo muuuito natural...
Duas situações cheias de bossa. Na primeira, a intensidade de uma geração intelectualizada e oprimida, que acreditava poder mudar o mundo (será que ainda acredita?), empregando a palavra liberdade em quase todas as frases pronunciadas; na segunda, o encontro de duas ou três gerações em uma mesma mesa, o afeto, a saudade, o reconhecimento em uma experiência única de troca. Os personagens são os mesmos, porém, com diferenças que somente o tempo pode imputar. De crianças a adultos, de fumantes inveterados a adeptos do modo de vida light, tudo regado à muita terapia, massagens e exercícios leves. Gente é assim: o comportamento muda e toda a cena muda.

Andréa Cordeiro Duailibe
Arquiteta e Urbanista pela Universidade Santa Úrsula / RJ
Professora do Curso de Arquitetura e Urbanismo da
Universidade Estadual do Maranhão / UEMA
andrea.duailibe@elo.com.br

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